XV Conferência Regional da Fetrafi Nordeste consolida propostas para a Campanha Nacional dos Bancários 2026 e amplia debate sobre tecnologia, saúde e organização sindical

Fortaleza sediou, entre os dias 24 e 26 de abril, a XV Conferência Regional da Fetrafi Nordeste, reunindo representantes dos oito sindicatos filiados da região em um encontro que consolidou propostas para a Campanha Nacional dos Bancários 2026 e ampliou o debate sobre os desafios impostos pelas transformações no mundo do trabalho.

Com o mote “o sindicato é a nossa casa”, a conferência reuniu dirigentes, assessores, delegados sindicais e especialistas em torno de temas que atravessam diretamente a realidade da categoria, como conjuntura política e econômica, inteligência artificial, saúde no trabalho, financiamento da ação sindical, cláusulas econômicas e comunicação em tempos de desinformação digital. Ao longo de três dias, o encontro produziu um diagnóstico abrangente da situação dos bancários no Nordeste e definiu prioridades que seguirão para a etapa nacional da construção da campanha.

A abertura do evento foi marcada pela leitura do manifesto contra as desigualdades e violências de gênero e por intervenções que situaram o cenário político e sindical deste ano. A defesa da Convenção Coletiva de Trabalho apareceu como eixo central das falas, acompanhada da preocupação com o avanço de projetos políticos que ameaçam direitos históricos da classe trabalhadora e aprofundam a precarização do trabalho.

Ao longo do primeiro dia, os debates também trouxeram reflexões sobre o sistema financeiro nacional, a conjuntura internacional e os impactos das disputas geopolíticas sobre a economia brasileira e o setor bancário, reforçando a necessidade de compreender o cenário mais amplo para qualificar a estratégia de negociação e organização da categoria.

Pesquisa traça retrato atualizado da categoria bancária

Um dos momentos centrais da conferência foi a apresentação da 9ª Pesquisa da Fetrafi/NE, conduzida pelo presidente da federação, Carlos Eduardo, que trouxe um panorama atualizado sobre o perfil e as percepções da categoria bancária no Nordeste. Realizado com 1.009 bancários, a estatística apontou um alto índice de sindicalização, forte reconhecimento do papel da federação e avaliação positiva da atuação sindical, além de indicar as principais prioridades para a campanha salarial deste ano.

Entre as reivindicações mais apontadas estão aumento real de salário, valorização do vale-alimentação, combate às metas abusivas, ampliação da participação nos lucros e resultados e enfrentamento ao adoecimento mental.

A pesquisa também revelou um dado importante para o debate atual: a preocupação crescente com os impactos da inteligência artificial sobre o emprego e as condições de trabalho, além de um cenário de endividamento significativo entre os bancários, especialmente a partir do uso de crédito e financiamentos.

Os dados apresentados serviram de base para os debates posteriores e reforçaram a importância de construir estratégias a partir da realidade concreta da categoria, e não de percepções isoladas.

Livro resgata a história das conquistas da categoria

Outro momento importante da programação foi o lançamento do livro CLT, CCT E ACT – Direitos trabalhistas conquistados com sindicatos fortes, de autoria de Carlos Eduardo. A publicação sistematiza a trajetória de construção da Convenção Coletiva de Trabalho dos bancários e reúne, de forma organizada, o conjunto de direitos conquistados ao longo das últimas décadas por meio da negociação coletiva e da organização sindical.

Ao apresentar a obra, Carlos Eduardo destacou que muitos direitos hoje incorporados ao cotidiano da categoria acabam sendo vistos como garantias naturais da legislação, quando, na verdade, são fruto de décadas de mobilização, enfrentamento e construção coletiva.

A publicação aborda temas como remuneração, saúde, segurança, emprego, tecnologia e proteção social, reforçando a dimensão da Convenção Coletiva como instrumento que amplia direitos para além da legislação trabalhista e se mantém como patrimônio político e social da categoria bancária.

O livro também foi apresentado como ferramenta de formação e diálogo com a base, especialmente em um contexto em que cresce a disputa de narrativas sobre o papel do movimento sindical e sobre a importância da negociação coletiva.

Inteligência artificial entra no centro da pauta sindical

A inteligência artificial foi um dos temas mais debatidos durante a conferência. A mesa sobre o tema teve a advogada Larissa Matos como palestrante principal e a discussão reuniu relatos concretos sobre como os bancos vêm incorporando sistemas automatizados para monitoramento de produtividade, reorganização de processos e redefinição das formas de atendimento.

O debate evidenciou que a tecnologia não pode ser tratada apenas como inovação técnica, mas como instrumento que reorganiza relações de poder dentro do ambiente de trabalho. Questões como vigilância digital, uso de dados, metas automatizadas, controle de desempenho e substituição de funções apareceram como preocupações centrais.

A avaliação predominante foi de que a categoria precisa se apropriar desse debate para disputar os limites e a regulação dessas tecnologias, impedindo que sejam utilizadas como mecanismos de intensificação da exploração e ampliação das desigualdades.

Saúde no trabalho ganha novo patamar no debate sindical

A mesa sobre saúde e bem-estar teve como palestrante a advogada Virgínia Porto e aprofundou um tema que tem ocupado espaço crescente nas negociações da categoria: o adoecimento físico e psíquico dos bancários.

A discussão ganhou novo contorno com a análise das mudanças na Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que amplia o conceito de ambiente de trabalho e incorpora de forma mais explícita os riscos psicossociais, fortalecendo o papel dos sindicatos no acompanhamento e fiscalização desses processos.

O debate mostrou que a intensificação das metas, o assédio moral e os modelos de gestão baseados em alta produtividade têm produzido impactos profundos sobre a saúde dos trabalhadores, exigindo uma atuação sindical mais estruturada também no campo da prevenção.

A conferência reforçou a necessidade de transformar esse debate em pauta concreta de negociação, com instrumentos de monitoramento, fiscalização e intervenção.

Financiamento sindical e negociação coletiva entram em debate

Outro tema tratado na programação foi o financiamento da ação sindical. A discussão, que teve como expositor o advogado Gustavo Gomes, abordou os desafios de sustentação das entidades após as mudanças na legislação trabalhista e a importância da contribuição negocial para manter a estrutura de negociação, assistência jurídica, formação política e comunicação sindical.

O debate reforçou que a manutenção e ampliação de direitos depende diretamente da capacidade de organização coletiva e da sustentabilidade das entidades representativas.

Também foram discutidos os instrumentos de autorregulação sindical e os limites do dissídio coletivo como alternativa à negociação direta.

Economia e negociação coletiva pautam debate sobre cláusulas econômicas

A mesa sobre cláusulas econômicas teve como expositor o economista Reginaldo Aguiar, que apresentou um panorama histórico da economia brasileira, da inflação e dos ganhos reais acumulados pela categoria ao longo dos últimos anos.

O debate abordou os impactos do cenário econômico sobre a próxima campanha salarial e os desafios colocados pela redução do número de bancários no sistema financeiro.

Comunicação e disputa de narrativa

A mesa sobre comunicação e combate às fake news trouxe para o centro do debate um desafio que atravessa não apenas o movimento sindical, mas toda a sociedade: a disputa pela informação em um ambiente dominado por plataformas digitais, algoritmos e circulação acelerada de desinformação. A presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, Samira de Castro, foi a convidada para palestrar sobre o tema.

O debate destacou como as redes sociais se tornaram espaços centrais de formação de opinião e como a extrema direita tem utilizado esses ambientes de forma organizada, com método e linguagem acessível, para disputar consciências e enfraquecer instituições democráticas e coletivas.

A conclusão foi de que os sindicatos precisam qualificar ainda mais sua comunicação, diversificar formatos e ampliar presença nos espaços digitais para disputar narrativa com mais eficiência.

Conferência aprova propostas e define encaminhamentos

No encerramento, os delegados aprovaram o conjunto de propostas que será levado pelo Nordeste à Conferência Nacional dos Bancários.

Entre os eixos aprovados estão a defesa do emprego, valorização da remuneração, manutenção e ampliação de direitos, combate ao adoecimento, enfrentamento às discriminações e ao assédio, defesa da previdência e regulamentação dos impactos tecnológicos no setor bancário.

Também foram aprovadas moções de solidariedade internacional, apoio a lutas de outras categorias e pautas ligadas à defesa dos serviços públicos e da soberania nacional.

Ao final, a XV Conferência Regional da Fetrafi/NE encerrou seus trabalhos consolidando uma agenda política e sindical construída a partir da realidade concreta da categoria e dos desafios colocados para o próximo período, reafirmando o papel da unidade regional como elemento fundamental na construção da Campanha Nacional dos Bancários 2026.

Delegação do Nordeste é eleita para a Conferência Nacional

Além da aprovação das propostas que irão compor a contribuição regional para a Campanha Nacional dos Bancários 2026, a XV Conferência Regional da Fetrafi Nordeste também elegeu a delegação que representará o Nordeste na Conferência Nacional dos Bancários.

A escolha dos delegados marca a conclusão de uma etapa fundamental do processo de construção coletiva da campanha, garantindo que os debates, avaliações e prioridades formulados no âmbito regional estejam representados na instância nacional de deliberação.

A delegação eleita levará para o debate nacional as resoluções aprovadas na conferência, com destaque para a defesa do emprego, valorização da remuneração, enfrentamento ao adoecimento da categoria, regulamentação dos impactos da inteligência artificial no setor financeiro, fortalecimento da negociação coletiva e ampliação da proteção social.